23 de Maio de 2020
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Edição de Sábado: O mundo transformado pelo coronavírus



Pandemias mudam o mundo. Ainda estamos no início do processo — não no meio, não no fim, mas no início. Por isso talvez não seja tão claro. Mas a história o mostra. A Peste Negra, que tomou o planeta na virada da década de 1340 para 1350, deixou uma Europa transformada. O que antes era uma cultura profundamente católica foi obrigada a lidar com a incapacidade de a religião salvar qualquer um. O humanismo tomou as rédeas, a Idade Média foi sendo deixada para trás conforme o saber científico ganhou valor e uma arte com o humano no centro — e não mais Deus — se tornou predominante. A virada para a Renascença, numa época em que os ritmos eram todos muito lentos, foi a maior herança da maior de todas as pandemias. Mas a mais recente tampouco foi distinta. Quando entre 1919 e 20 a primeira influenza girou o mundo apelidada de Gripe Espanhola, transformou o espírito da humanidade. Falamos tão pouco daquela gripe. Entre 1914 e 18, a Primeira Guerra matou entre 15 e 22 milhões pessoas. No ano e meio seguinte, a pandemia levou mais de 50 milhões. Se o mundo anterior era um duma sisudez ainda oitocentista, vestidos que a tudo cobriam e moralidade vitoriana, os anos 1920 foram em tudo diferentes. Mulheres de cabelos curtos, vestidos das melindrosas acima do joelho e, na música, as sinfônicas substituídas pelo jazz e pelo choro, a explosão do cinema, a popularização do telefone assim como do rádio. Foi um tempo de rápido avanço tecnológico, busca acelerada por vida e felicidade, por quebra de normas. Pandemias fazem isso. Aceleram tecnologias que promovem proximidade, mexem nos valores de uma sociedade, reposicionam os critérios sobre o que é importante. Muitos dos sistemas de saúde pública europeus nasceram após a Gripe Espanhola. Pois o mundo já está sendo transformado. Como das outras vezes, haverá transformações na cultura, na economia, nos valores — e tudo movido a tecnologia. Não temos como prever tudo. Mas há pistas.




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