15 de Agosto de 2020
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Edição de Sábado: O fantasma do SNI se apresenta



Na madrugada do dia 30 de agosto, em 1969, o presidente Artur da Costa e Silva se levantou para ir ao banheiro. Aí, um barulho. Sua mulher, dona Yolanda, também se levantou. Assustada. Encontrou o marido com o olhar perdido, descabelado, vestindo pijamas. “O que é, Costa?”, ela perguntou. O marechal não respondeu. Apontou para dentro da boca — não conseguia falar. Não era o primeiro episódio. Fazia dois dias em que, por alguns instantes, sem que compreendesse bem o porquê, a fala desaparecia. Talvez a tensão do momento justificasse aquilo. Dentro do governo, havia um intenso debate sobre a revogação do AI-5, que fechara a ditadura brasileira uns meses antes, em dezembro. O presidente queria promulgar uma reforma constitucional, reabrir o Congresso e voltar com eleições diretas para governadores. Os ministros militares eram contra, consideravam que o país não estava pronto. O médico particular de Costa Silva, o major Hélcio Simões Gomes, já havia assistido a um episódio similar, dois dias antes, após uma sessão de western spaghetti no cinema do Palácio da Alvorada. A fala do presidente sumia. Mas Hélcio fez testes neurológicos e tudo parecia bem. Não estava. Uma trombose provocou falta de oxigenação no cérebro. Acidente vascular cerebral. O presidente da República perdia a capacidade de governar. E, dali, tumulto. O vice-presidente, Pedro Aleixo, havia sido o único voto contra o AI-5. Cumprir a lei, passando-lhe o cargo, mudaria a rota da ditadura. Os militares precisariam dar um novo golpe de Estado, instalando na presidência um homem que compreendesse os riscos que viam o Brasil correndo. E, em sua visão, ninguém estava mais apto ao cargo do que o comandante do Serviço Nacional de Informação. O general Emílio Garrastazu Médici.




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