16 de Janeiro de 2021 | PREMIUM

Edicão especial: o que sabemos sobre as vacinas... até agora

Se o gerenciamento da vacinação contra a Covid-19 no Brasil está nos ensinando algo é que nada está garantido até que tenha acontecido. Uma das poucas certezas é que amanhã, dia 17, a diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vai se reunir para autorizar ou não o uso emergencial de duas vacinas, a CoronaVac, da chinesa SinoVac em parceria com o Instituto Butantan, e a da Universidade de Oxford/AstraZeneca com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Na segunda-feira termina o prazo de dez dias estabelecido pela própria Anvisa para dar uma resposta aos pedidos de uso emergencial. Passada a única certeza – a data limite da Anvisa –, começa um emaranhado de dúvidas que envolve até mesmo qual vacina estará disponível para os brasileiros. No momento em que este texto é escrito, a exportação para o Brasil de dois milhões de doses da vacina de Oxford fabricadas na Índia ... (Leia mais)

9 de Janeiro de 2021 | PREMIUM

Edição de Sábado: Ascensão e derretimento do Partido Republicano de Trump

Aproximavam-se as 17h de uma quarta-feira, 7 de agosto em 1974, quando o chefe de gabinete do presidente Richard Nixon abriu a porta do Salão Oval para que entrasse, acompanhado de um deputado, o senador Barry Goldwater. Aos 65, o cabelo grisalho curto à moda militar, óculos espessos de casco de tartaruga escuro, Goldwater tinha o rosto quadrado, queixo proeminente, bem poderia fazer um caubói no cinema. Era, aliás, um homem do Oeste, do Arizona. Um homem rígido e com frequência mal-humorado mas que, por uma série de características pessoais, parecia o único republicano capaz de desempenhar aquela missão com a necessária sisudez. Barry, como o chamavam seus pares, acertaria o tom. Diferentemente da maior parte dos políticos, o seu instinto era de falar sempre, e com clareza, exatamente aquilo que pensava. Não suavizava o discurso de acordo com o interlocutor. Era senador e, além disto, havia sido o último ... (Leia mais)

19 de Dezembro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: Luz após a mais longa noite

Hoje é 19 de dezembro de 2020. Na noite de ontem, judeus de todo o mundo concluíram o Hanukkah, a festa das luzes. Dentro de cinco dias, bilhões de cristãos celebrarão o nascimento de Jesus. Na próxima segunda-feira, religiões neopagãs (mesmo as que não se aceitam como “neo”) começam a celebração de Yule no Hemisfério Norte. No Irã, a despeito da predominância do Islã, o Shab-e Yalda ainda homenageia o nascimento de Mitra. Na China, oficialmente ateia, o Dong Zhi continua a congregar celebrantes. E lista segue. Como é possível que povos tão diferentes tenham celebrações de significados semelhantes no mesmo período do ano? A resposta está no que hoje chamamos de Astronomia. O solstício de Inverno, que acontece no dia 21 no Hemisfério Norte, enquanto aqui encaramos o solstício de Verão e o calor infernal que vem com ele. Antes de seguirmos, são necessárias duas notas de esclarecimento. Como ... (Leia mais)

12 de Dezembro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: John Lennon, este senhor de 80 anos

Cinco tiros dados pelas costas, quatro deles no alvo. O assassino se senta na calçada e lê calmamente um livro enquanto aguarda a polícia. Uma ambulância leva a vítima até o hospital, mas os médicos constatam que não havia mais o que fazer. John Lennon estava morto. A notícia do que havia acabado de acontecer na noite daquele 8 de dezembro de 1980 provocou ondas de choque emocionais em todo o mundo. Sozinhos em seus quartos ouvindo discos ou reunidos em multidões diante do Hospital Roosevelt, onde estava o corpo, e do Edifício Dakota, local do crime, os fãs choraram o vazio provocado pela obsessão de Mark David Chapman, o criminoso. Quatro décadas depois, Lennon permanece um mito, e sua música, em particular a produzida nos Beatles, continua inspirando e influenciando. Se estivesse vivo, teria 80 anos. Quem seria esse ancião, artística e politicamente? Não existe história contrafactual, mas nada ... (Leia mais)

5 de Dezembro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: Renda Básica Universal é o futuro?

Na virada dos anos 1920 para 30, a Grande Depressão era causa de grande angústia para uma trupe de intelectuais e artistas britânicos que, informalmente, se tornou conhecida como grupo de Bloomsbury por conta da vizinhança londrina em que todos moravam. De mais próximos a mais distantes, faziam parte do conjunto a escritora Virginia Woolf, o filósofo Bertrand Russel, o economista John Maynard Keynes. Educados nas melhores universidades do país, muitos criados na aristocracia, todos brilhantes, cultivavam uma excentricidade comum e criam que havia um prazer profundo e fundamental a se aproveitar no convívio com as artes. Eram pacifistas, experimentavam sexualmente, todos feministas, antiautoritários, engajados num constante debate intelectual. Ideias, mesmo que muito ousadas, mereciam cuidadoso escrutínio. Eram burgueses. Gostavam da boa vida, e se dedicavam a aproveitar esta vida. Pois a Grande Depressão ameaçava seu mundo ao espalhar pobreza e desespero, incitando movimentos radicais como Comunismo e Fascismo. Aquele ... (Leia mais)

28 de Novembro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: Teorias Conspiratórias não vão embora nunca

O foco apareceu quando se aproximava a madrugada, entre 18 e 19 de julho, no ano de 64. Foi bem perto do Circo Máximo, a primeira chama, portanto a menos de um quilômetro do palácio imperial. A lua estava cheia, o céu límpido, e noites assim na cidade de Roma ainda hoje são tão claras que dá para ver como se fosse dia. Aquela, porém, era ainda uma cidade em grande parte pobre, erguida em madeira, e o vento úmido e constante que calhou de bater foi fazendo as chamas se alastrarem. Roma ardeu por nove dias ininterruptos. E em algum daqueles dias começou a se alastrar lenta, também, não só fogo mas também a história de que o incêndio não era acidente. Que tinha culpado. Que havia sido por ordem do próprio imperador. Ordem de Nero. O jovem imperador tinha 26 anos. Havia já ordenado a morte da mãe ... (Leia mais)

21 de Novembro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: Quando vencer em política exige reinvenção

Quando Bill Clinton se elegeu presidente, em 1992, ele não era apenas o governador muito jovem e em grande parte desconhecido de um estado pobre no sul americano. Clinton rompia também um longo jejum. Dos seis mandatos presidenciais anteriores, apenas um havia sido democrata. E Jimmy Carter era lembrado como bem intencionado, porém inepto e fraco. O novo presidente tinha 46 anos de idade e uma responsabilidade deste tamanho: a de não fracassar. E não fracassar queria dizer, antes de tudo, compreender algo que ele entendia com clareza. Às vezes, na política, é preciso um redesenho, há que se reimaginar ideias e pactos. Seu partido tinha de ser reinventado para que pudesse voltar ao poder. Este não é um fenômeno raro. De tempos em tempos, grupos políticos precisam se reinventar. Acordos antes inimagináveis precisam ser feitos. Só algo diferente, algo novo, torna a trazer vitórias eleitorais. Para entender o problema ... (Leia mais)

14 de Novembro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: O Brasil que vai às urnas

Em meio a uma pandemia, com um estado da União ainda às escuras e enfrentando na medida do possível as ondas de desinformação nas redes sociais, os brasileiros amanhã vão escolher os próximos prefeitos e vereadores de 5.570 municípios. Cada eleição é diferente da outra, mas esta abusa do direito de ser atípica, e não apenas pelos fatores listados acima. O país ainda não processou completamente o impacto da Lava-Jato em sua estrutura partidária, convive com um governo que mantém a polarização em fogo alto e vê só agora uma reorganização da oposição. Mas o que esses assuntos “federais” têm a ver com as eleições nos municípios, que deveriam tratar de creches, saneamento, postos de saúde, mobilidade urbana e outros temas locais? Tudo. Numa democracia, a política se faz de baixo para cima. Vereadores e prefeitos são cabos eleitorais de governadores e deputados estaduais, que, por sua vez, são importantes ... (Leia mais)

7 de Novembro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: O mundo após Trump

Ontem à tarde, logo que o democrata Joe Biden ultrapassou o presidente Donald Trump na contagem dos votos na Pensilvânia, o cientista político Francis Fukuyama foi ao Twitter — “Ding, dong, the witch is dead”, escreveu brincando. É o refrão da música pela qual o povo munchkin celebra, logo no início do Mágico de Oz, a morte da velha Bruxa do Leste, esmagada pela casa da menina Dorothy. Professor no Centro de Democracia e Desenvolvimento da Universidade de Stanford, no Vale do Silício, Fukuyama se tornou célebre ao lançar, em 1992, O Fim da História e o Último Homem. No livro, ele desenvolvia a tese de que com a vitória dos regimes democráticos sobre os comunistas, marcada pela queda da União Soviética, a tendência do mundo seria de lentamente ir migrando para a democracia liberal. De alguma forma, os dez a quinze anos seguintes fizeram parecer que ele poderia ter ... (Leia mais)

31 de Outubro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: Como acompanhar as eleições americanas

Para quem gosta de política democrática, poucos programas são tão divertidos quanto assistir a uma noite de apuração de eleição presidencial americana. Assim como os esportes americanos — seu futebol e o beisebol —, a coisa nunca é simples como no resto do mundo. Nunca é um mero contar de votos, quem leva mais ganha. Há sempre regras intrincadas, trapaças inusitadas, e ainda assim é essencialmente um jogo da política. Da arte na qual homens públicos vão à população e usando dos meios que têm buscam convencê-la de seus propósitos. Mas esta eleição evidentemente é única. Por um lado, os EUA foram capturados por um tipo de populismo autoritário que abertamente busca cassar o direito ao voto de parte da população para se manter no poder. Isto não é novo — sempre foi parte do jogo americano. Os Estados Unidos não garantem o direito ao sufrágio universal em sua Constituição. ... (Leia mais)

24 de Outubro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: A revolta da vacina presente

Até uma bomba jogaram na casa do reverendo Cotton Mather, o sisudo senhor de 53 anos que em 1721 já era a mais respeitada autoridade religiosa da pequena Boston, uma colônia inglesa na distante América. É que o pastor calvinista, filho e neto de religiosos respeitados, era também um curioso. Se por um acaso, na juventude, Mather tinha de fato tido lá sua participação no julgamento das bruxas de Salem — e ele acreditava em bruxas —, por outro era um dedicado observador de fenômenos da natureza. Estudava atento, por exemplo, como traços de espécies eram transferidos de geração em geração, e fazia experimentos com plantas para ver como produzir híbridos reunindo características que não existiam naturalmente. Seu pai havia sido reitor de Harvard. Ele, Cotton, foi um dos fundadores de Yale. Hoje, grandes universidades. E, naquele ano de 1721, o pastor vinha defendendo aplicar uma técnica que chegara do ... (Leia mais)

17 de Outubro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: O Colégio e o Voto

Eles queriam uma República, não uma Democracia, aqueles homens que fundaram os Estados Unidos. Quando se reuniram em debates que duravam dias sem fim, sua revolução já terminada, buscavam inventar um sistema, ou talvez recriar um sistema da Antiguidade, que produzisse liberdade da tirania, que trouxesse Justiça, e que de alguma forma desse vida a ideias ainda bem novas sobre as quais escreviam filósofos como John Locke, Montesquieu ou Voltaire, na Europa. Ideias a respeito da igualdade perante as leis. Isso foi há pouco mais de 230 anos. Eram, aqueles homens reunidos no ano de 1787 na Convenção Constitucional, em geral muito cultos, em geral muito inteligentes, e alguns muito sensíveis, mas também homens que traziam consigo os preconceitos do século 18, os buracos de conhecimento do seu tempo, e uma penca de valores que nos chocariam. Tinham de conviver com os limites tecnológicos de um tempo no qual a ... (Leia mais)

10 de Outubro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: O Pix no futuro do dinheiro

Há um lugar comum jornalístico sobre a cobertura de tecnologia na China: é a surpresa ao descobrir que, nas ruas, pedintes carregam códigos QR para esmolas. Aceitam dinheiro via transações digitais. Tem motivo para a curiosidade se repetir em tantas narrativas. É um atalho para mostrar como a China se digitalizou. Mas igualmente mexe com a imaginação: aponta para um futuro próximo em que o dinheiro se torna de vez digital, no qual cédulas e moedas desaparecem, substituídas por números numa tela. O Pix, novo sistema de pagamento que começa a funcionar em novembro, vai permitir estas transferências via código QR no Brasil. É inevitável que torne o país mais digital. A mexida na imaginação, porém, é na verdade uma ilusão. Porque o dinheiro físico já é exceção faz muito tempo. Estima-se que circulam, no mundo, US$ 51,5 trilhões. Destes, apenas US$ 4,3 tri existem em notas ou moedas. Ou: ... (Leia mais)

3 de Outubro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: E agora, Donald Trump?

Mal passavam das 14h30, no dia 30 de março em 1981, quando para alarme do agente do Serviço Secreto Jerry Parr o presidente Ronald Reagan pôs sangue pela boca. A limusine presidencial trafegava já a toda pelas ruas de Washington, com destino a Casa Branca. Apenas uns minutos antes, quando Reagan saía de um hotel na capital, um homem avançou disparando tiros. Houve corpos caídos, confusão, ainda não estava perfeitamente claro o que havia ocorrido. Mas Parr já havia checado o tórax do presidente em busca de sangue, sinal de que pudesse ter sido atingido. Não encontrara nada. Ainda assim, não piscou. Talvez, no gesto bruto de se lançar sobre o presidente o levando para dentro do automóvel blindado, tivesse lhe quebrado uma vértebra. Talvez houvesse um pulmão perfurado. Deu ordens ao motorista que se desviasse do caminho. Que fosse para o Hospital da Universidade George Washington. Àquela altura, pensou ... (Leia mais)

26 de Setembro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: Os EUA flertam com ruptura institucional

A morte da juíza Ruth Bader Ginsburg, a seis semanas das eleições presidenciais americanas, lançou o país na boca de uma crise política sem precedentes. Uma crise que lança dúvidas a respeito da própria democracia americana. Uma crise que, no limite, pode até alterar o resultado da própria eleição de 3 de novembro. O cenário Juízes da Suprema Corte são indicados por quem ocupa a presidência da República, depois sabatinados e aprovados por maioria simples no Senado. Em média, desde 1975, o processo entre a escolha do nome e a aprovação demora 67 dias. O presidente Trump deve anunciar entre hoje, sábado, e a próxima segunda-feira a pessoa que considera mais apta a substituir Ginsburg. Ou seja, em condições normais, a substituição ocorreria na primeira semana de dezembro. Quase um mês após o pleito. Quem tem, neste momento, todas as peças nas mãos para definir o jogo é o Partido ... (Leia mais)

19 de Setembro de 2020 | PREMIUM

Edicão de sábado: 19 de Setembro

O ano é 2020. Primeiro foram as máscaras — não eram recomendadas no começo da pandemia. Depois vieram as lives, as grandes doações, os vídeos de celebridades unidas contra o coronavírus, as festinhas pelo Zoom, o espírito solidário. Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos. Daí vieram os protocolos do ‘novo normal’, ou a primavera da esperança de que seriam respeitados. Agora são as escolas e suas tentativas de retomada em meio à incerteza de um mundo que, sem vacinação em massa, não tem todas as respostas. O ano é 2020. E não é só no Brasil. As coisas, as pessoas, os dados, as curvas, as prioridades, as políticas mudam muito em meio à pandemia do novo coronavírus. Na última segunda-feira, o guia sobre a retomada das aulas e a reabertura de escolas ao redor do mundo foi atualizado pela Organização Mundial da Saúde, junto com o ... (Leia mais)

12 de Setembro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: Bob Woodward atinge outro presidente

Bob Wooodward não é um jornalista qualquer. Só dois repórteres americanos podem afirmar que apuraram histórias que levaram à renúncia de um presidente — ele e seu colega de Washington Post nos anos 1970, Carl Bernstein. Mas, desde então, ambos seguiram carreiras muito distintas. Enquanto Woodward se consolidou como uma eminência parda da capital, Bernstein seguiu errático sua história profissional. De certa forma, Woodward é a memória de um outro tempo do jornalismo, quando a profissão era percebida em boa parte do Ocidente como independente em relação ao poder. A percepção, hoje, é outra e, por isso mesmo, não são poucas as críticas feitas ao veterano repórter — algumas bastante fortes, principalmente a respeito da cobertura que fez dos governos de George W. Bush. Esta semana saíram detalhes de seu novo livro — Rage, ou Fúria —, o segundo que escreve a respeito do governo Trump. Ali, o atual presidente ... (Leia mais)

5 de Setembro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: A liberdade bolsonarista e a liberal-democrata

Nesta semana, o presidente Jair Bolsonaro tratou o debate sobre vacinar ou não como uma questão de liberdades individuais. Já havia usado o mesmo discurso para o uso de máscaras ou para a prática da quarentena. A linguagem parece a do liberalismo, mas não é. É um sequestro do termo. O liberalismo trata da liberdade de não ser oprimido, na garantia de que, perante a lei, todas as pessoas serão iguais. O bolsonarismo enxerga a liberdade de ignorar os direitos dos outros. Quem manda pode, quem tem juízo obedece. Não é novo este sequestro do conceito de liberdade e, por isso, não é à toa que seja um dos temas tratados pelo editor do Meio, Pedro Doria, em seu novo livro — Fascismo à Brasileira. A obra narra, como se fosse um thriller, a origem do Integralismo nos anos 1930 — aquele que foi o maior movimento fascista fora da ... (Leia mais)

29 de Agosto de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: As Origens do Nacional Desenvolvimentismo

Quem o conheceu conta que sempre sorria. E é assim mesmo que aparece em quase todos os retratos do tempo de presidente: sorrindo. Tinha aquela capacidade de falar com qualquer um no mesmo tom, não importa se rico ou pobre, com poder ou sem. Juscelino sempre ouvia atento. Hoje, seus discursos não impressionariam — tinham aquele tom de político antigo em que cada palavra é dita por inteiro, nunca tomava atalhos de raciocínio, mesmo quando improvisava parecia recitar um texto escrito. Tremia alguns dos Rs. Mas a memória que deixou foi a de um presidente que imaginou um país grande e o entregou. O presidente do tempo do otimismo, cujo período de governo é chamado Anos Dourados, que governou um país que ganhava o mundo — pela Copa de 1958, pela Bossa Nova que nascia, pelas duas polegadas de Martha Rocha, pela arquitetura modernista que criava. Era um democrata convicto, ... (Leia mais)

22 de Agosto de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: O bizarro conspiracionismo do QAnon

Na última quarta-feira, Facebook e Instagram anunciaram a remoção de 790 grupos, 100 páginas, 1.500 peças publicitárias e um sem número de postagens relacionados a uma teoria conspiratória americana chamada QAnon. Algumas horas depois, na Casa Branca, uma repórter perguntou ao presidente Donald Trump a respeito dos seguidores desta teoria. “Não sei muito a respeito do movimento além do fato de que gostam muito de mim”, ele respondeu. A repórter insistiu. “No centro da teoria há uma crença de que você está salvando o mundo de um culto satânico de pedófilos e canibais.” Trump permaneceu impassível. “Não havia ouvido isso, mas é ruim?”, ele inquiriu. “Se posso resolver problemas do mundo, estou disposto a fazê-lo. E estamos fazendo. Estamos ajudando o mundo a se livrar de uma filosofia radical de esquerda.” Em momento algum o presidente ensaiou um sorriso, uma ironia. Se recusou a sugerir que a história foge à ... (Leia mais)