25 de Maio de 2022 | PREMIUM

Os três "golpes" de Jair Bolsonaro

O sistema político de 1988 foi construído deliberadamente contra a herança autoritária do regime militar. A Constituição que lhe serve de baliza jurídica consagrou uma arquitetura institucional pautada por princípios e valores capazes de comportar governos liberais democráticos, como o de Collor e Fernando Henrique; social-democratas, como o de Lula e Dilma; e conservadores, como o de Sarney e Temer. A crise de legitimidade do sistema representativo tornada aguda entre 2013 e 2018 tornou possível, porém, a emergência de uma direita radical, inimiga do Estado de Direito da Nova República. Desde então, o fantasma do golpe tem assombrado nossa democracia. O questionamento do resultado da eleição presidencial de 2014 por Aécio Neves foi denunciado como “tentativa de golpe”; a Lava Jato, como um conjunto de sucessivos “golpes” em formas jurídicas (o “lawfare”); e o impeachment de Dilma Rousseff, como “golpe parlamentar”. A própria eleição de Bolsonaro teria sido possível graças ... (Leia mais)

21 de Maio de 2022 | PREMIUM

Edição de Sábado: Perigo de Extinção

Numa fusão ambígua de pragmatismo com nostalgia, Aécio Neves descrevia o que acreditava ser a atual situação do PSDB, sigla que presidiu entre 2013 e 2017. “Nosso problema foi criado por nós e nós é que temos que resolvê-lo”, falou o Aécio pragmático. O “problema” é o PSDB decidir se terá um candidato à Presidência da República próprio em 2022 e se ele será o ex-governador de São Paulo João Doria, escolhido em prévias no mínimo confusas. A forma dolorosamente pública com que o partido tem lidado com o “problema” contribui para a ideia de esfacelamento tucano. Aécio nostálgico, então, tomou a palavra. “Ele [Doria] teria de fazer um gesto de coragem, de desprendimento, como o que Franco Montoro fez em 1984. Eu era secretário do meu avô, Tancredo, viajamos tarde numa noite para São Paulo. E Tancredo foi dizer ao Montoro que era ele o candidato ao colégio eleitoral. ... (Leia mais)

18 de Maio de 2022 | PREMIUM

O Judiciário no centro dos projetos de poder

Períodos pré-eleitorais, normalmente, são marcados por discussões sobre a situação econômica e social do país e por diferentes propostas sobre a maior ou menor presença do Estado, de como combater a pobreza, a inflação, o desemprego. Novas pautas, contudo, surgiram nos últimos anos, indicando mudanças. Temas considerados pacificados voltaram à tona, como o papel da ciência, a separação entre religião e estado, a inexistência de poder moderador no regime republicano, benefícios da educação presencial, universalização da saúde, benefícios da vacinação e imunização. A nova agenda foi alimentada, em grande parte, por convicções anticientíficas e por projetos de concentração de poder. O negacionismo acabou por abarcar diversos temas, inclusive aqueles que sempre pareceram um ganho. Dentre eles, a eficiência de urnas eletrônicas e a confiança nos procedimentos e resultados eleitorais, conquistas reconhecidas até no exterior. O atual presidente, candidato a um novo mandato, em campanha desde a posse, levantou suspeitas sobre ... (Leia mais)

14 de Maio de 2022 | PREMIUM

Edicão de sábado: A Rússia no atoleiro

Em pouco mais de dois meses de guerra na Ucrânia, a Rússia perdeu pelo menos 650 tanques de guerra — metade não por terem sido destruídos, mas porque foram abandonados. É o número confirmado. Os ucranianos dizem que foram 1.200. Os russos perderam também três navios de grande porte, abatidos por mísseis. Um deles, o cruzador Moskva (vídeo), era o mais importante da frota do Mar Negro. Até o último dia 6, o Kremlin admitia a morte de 1.351 soldados, mas não incluía na planilha oficial os outros 2.100 milicianos que lutavam ao seu lado e também foram reconhecidamente mortos. A estimativa do governo americano é de que as perdas passam dos dez mil homens. Para os britânicos vai além dos 15 mil. (Em quase vinte anos de presença no Iraque, morreram 4.431 soldados americanos.) Pelas contas da imprensa, e esta talvez seja a lista de obituários mais surpreendente, 12 ... (Leia mais)

11 de Maio de 2022 | PREMIUM

Coalizão, para que te quero?

O cientista político Carlos Pereira, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV EBAPE), não está disposto a simplesmente desqualificar o Centrão e seu papel moderador no presidencialismo de coalizão que vigora no Brasil. Acredita que, por incontornáveis no multipartidarismo, as coalizões devem ser eficientes. Presidentes eleitos precisam encontrar a fórmula paradoxal de agradar seu eleitor e um Congresso nem sempre alinhado com o programa que o elegeu. Não satisfeito, Pereira, doutor em Ciência Política pela New School University, de Nova York, criou essa fórmula. Ela consiste em: equilibrar um número não tão grande de aliados; escolher partidos que sejam em alguma medida homogêneos; que não estejam tão distantes do pensamento mediano do Congresso; e distribuir entre eles ministérios e recursos proporcionais a sua relevância política. Tudo isso sem alienar seu eleitor. É um cálculo repleto de pragmatismo, com menos espaço para a ... (Leia mais)

7 de Maio de 2022 | PREMIUM

Edicão de sábado: O político camuflado

Na manhã do dia 10 de agosto de 2021, o céu de Brasília estava aquele deslumbre de sempre. Um proverbial céu de brigadeiro, condizente com a parada militar que aconteceria na praça dos Três Poderes. Uma centena, se tanto, de camisas verde-amarelas vibravam a cada um dos 40 tanques e caminhões que atravessavam a larga avenida. Na rampa do Planalto, os chefes das Forças Armadas, fardados, assistiam ao desfile, ladeados por outros dois militares, esses trajados de ternos. Um, o presidente da República, o capitão reformado Jair Bolsonaro. O outro, o então ministro da Defesa, idealizador da parada, o general da reserva Walter Souza Braga Netto. Os sorrisos contidos de Braga Netto reprimiam seu fascínio por tanques de guerra. No figurino civil ou no militar, a discrição marca a atuação do general, na reserva desde fevereiro de 2020. Mas sua desafetação não é sinônimo de comedimento. O desfile aconteceu no ... (Leia mais)

4 de Maio de 2022 | PREMIUM

O aborto nos EUA e o indulto no Brasil

Ao que tudo indica, a Suprema Corte dos Estados Unidos reverterá a decisão Roe vs Wade, tomada em janeiro de 1973, que havia declarado inconstitucional proibir o aborto no país. Na noite da segunda-feira, o site Politico vazou o rascunho do que aparenta ser o voto da maioria, com o apoio de cinco dos nove juízes. Alguns estados já têm prontas leis proibindo a prática de forma bastante rígida assim que o veto constitucional cair. De longe, parece uma questão interna americana. Pode ser lida, num contexto global, como um perigoso retrocesso nos direitos das mulheres. Mas a história de como a Corte chegou a esta decisão vai muito além. Ela narra o processo de como um pequeno grupo no poder pode sequestrar uma democracia, corromper seus pilares, atropelar os direitos daqueles em posição mais frágil numa sociedade e impor sobre todos a visão de uma minoria radicalizada. Compreender este ... (Leia mais)

30 de Abril de 2022 | PREMIUM

Edição de sábado: "Na favela, a gente sobrevive"

Um tiro no peito matou Jonatan Ribeiro de Almeida, de 18 anos, na favela Jacarezinho, Zona Norte do Rio. A bala não estava perdida. Tinha alvo certo no corpo negro, jovem e de periferia. O autor do disparo foi um policial militar que, depois de mentir que havia atirado num confronto com traficantes, admitiu que não houve troca de tiros. As forças policiais argumentam que Jonatan estava vendendo drogas e portava a réplica de uma pistola, o que sua família nega. É uma justificativa para o extermínio — e ela ressoa com parte da opinião pública, adepta da máxima “o bandido escolhe essa vida, plantou o que colheu”. Mas para o morador da favela, que testemunha diuturnamente a brutalidade policial, essa é apenas uma estratégia de desumanização. Diego Aguiar, de 24 anos, assistiu ao assassinato de Jonatan, que aconteceu às vésperas do aniversário de um ano da operação na favela ... (Leia mais)

27 de Abril de 2022 | PREMIUM

O teatro das ambições

Embora PhD em terrorismo institucional, a via preferencial de Bolsonaro sempre foi a eleitoral. Um golpe frontal contra o Judiciário ainda está fora de suas possibilidades. Ele não interessa nem ao Centrão, que vive da política profissional, nem ao Alto Comando do Exército, que zela por sua autonomia corporativa. É verdade que se planeja uma arruaça à Trump, em caso de derrota eleitoral. Se ela não servir para mantê-lo ilegalmente no poder, servirá para deslegitimar a vitória da oposição como fraudulenta e negociar algum tipo de imunidade para deixar o poder. O indulto pode ser um ensaio para isso. Enquanto isso, o Poder Legislativo assiste à crise contínua de modo impassível, para não dizer cúmplice. Embora não queiram ditadura, os líderes do Congresso – os do Centrão, sobretudo – também não têm interesse na volta do velho presidencialismo de coalizão. Era um sistema no qual o Legislativo não tinha autonomia, ... (Leia mais)

23 de Abril de 2022 | PREMIUM

Edição de Sábado: O Futuro Ausente

Com um fundo embaçado e um branco idílico de figurino, Lula surge na tela proclamando: “Meus amigos e minhas amigas, nos tempos do PT não faltava comida na mesa”. Uma mulher de cabelos grisalhos evoca os tempos em que, com R$ 100, ia ao açougue, ao sacolão e à padaria. Outra, um pouco mais nova, exalta a memória da segurança de saber que, ao voltar da escola, seu filho teria o que jantar. “Ele botou o pobre para comer uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes se tivesse fome”, diz um homem de meia idade. Por fim, um idoso, cabeça bem branquinha, rememora um Brasil em que o “povo andava de barriga cheia”. O slogan “se a gente quiser, a gente pode” encerra a propaganda. A inserção petista foi ao ar há três semanas. As propagandas estão no calendário eleitoral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Entre 2 e 11 ... (Leia mais)

16 de Abril de 2022 | PREMIUM

Edição de sábado: A Páscoa além de Jesus

Amanhã, cerca de 2,3 bilhões de cristãos em todo o mundo vão comemorar a Páscoa, a data mais importante de sua religião. Embora extremamente popular, o Natal não é igualmente relevante. Sua data foi estabelecida quase cinco séculos depois para coincidir com as celebrações romanas do Sol Invictus, o solstício de Inverno. Além disso, há incorreções históricas e muitas discrepâncias entre as narrativas da Natividades nos evangelhos de Lucas e Mateus, o que leva teólogos a encará-las antes como parábolas. A literalidade da paixão, morte e ressurreição de Jesus, porém, é ponto inquestionável dentro do cristianismo, ocupando praticamente um terço dos quatro evangelhos canônicos – pela ordem cronológica, Marcos, Mateus, Lucas e João. Seu sacrifício para expiar os pecados do mundo e sua volta da morte em um corpo divino dão sentido à fé cristã e são referência constantes nas epístolas escritas por Paulo entre 50 e 60 d.C, os ... (Leia mais)

9 de Abril de 2022 | PREMIUM

Edição de Sábado: Como o aborto virou arma política

Em junho de 1967, Ronald Reagan ocupava fazia seis meses o governo da Califórnia, seu primeiro cargo eletivo. O mês começara difícil, com um assassinato político que abalou os Estados Unidos em Los Angeles, a mais populosa cidade do estado. O senador nova-iorquino Bobby Kennedy, que havia participado de um debate sobre a Guerra do Vietnã com o governador apenas alguns dias antes, foi morto por um ativista palestino quando estava próximo de ser escolhido candidato democrata à presidência. Reagan tinha 56 anos, usava um topete e muita goma, seu rosto ainda não era marcado pelas rugas que carregaria por quase toda a presidência. Ele já era, porém, a voz de um novo conservadorismo americano, que traria valores religiosos de volta para a arena política após muitas décadas em que o laicismo havia imperado em Washington. E foi naquele mês, no dia 14, que Reagan sancionou o Ato do Aborto ... (Leia mais)

2 de Abril de 2022 | PREMIUM

Edição de Sábado: Se liga, 16

A sexta-feira, 16 de outubro em 1987, foi um dia de gritaria no Congresso Nacional. As galerias da Câmara dos Deputados estavam cheias e, sentado à cadeira da presidência na Mesa Diretora, o senador peemedebista Fernando Henrique Cardoso assistia em silêncio à intensa troca de argumentos entre os parlamentares. Naquele dia, ele comandava o processo de voto da Comissão de Sistematização da Assembleia Nacional Constituinte. Era a comissão mais importante, composta por 86 parlamentares, e recebia todos os projetos aprovados pelas comissões temáticas para definir quais ficariam no rascunho da futura Carta. Este texto final seria depois votado pelo conjunto dos constituintes. Fernando Henrique não era o presidente titular, este cargo cabia a outro senador, o pefelista Afonso Arinos, que aos 82 anos era o decano dentre os responsáveis pela redação da Constituição de 1988. Mas Arinos não estava e FH o substituiu. No alto, jovens gritavam e estendiam faixas. ... (Leia mais)

26 de Março de 2022 | PREMIUM

Edicão de sábado: Partidão aos 100

Quando bateu tímido à porta de Machado de Assis, no ano de 1908, Astrojildo Pereira estava a semanas de se tornar maior de idade. Àquela altura, após uma crise íntima que o pusera em conflito com sua educação jesuítica, já era ateu, mas ainda estava na busca de um norte, alguma forma de crença que pudesse movê-lo. E talvez tenha sido este seu traço de personalidade que o trouxera até ali, à casa do velho escritor. Quem abriu a porta foi Euclides da Cunha. “Da parte de quem?”, lhe perguntou. O rapaz explicou que não conhecia ninguém da casa, queria só saber como estava Machado. Se, de repente, não podia vê-lo. Outros se aproximaram de Euclides — a casa estava cheia —, e um burburinho se formou. Deixavam entrar? Foi o velho escritor, de sua cama num quarto do primeiro andar, que mandou chamá-lo. “Não disse uma palavra”, descreveu a ... (Leia mais)

19 de Março de 2022 | PREMIUM

Edição de Sábado: Quatro pensadores, Uma guerra

Aos 60, Aleksandr Gelyevich Dugin ainda mantém a longa barba que cultiva há anos e, mais de uma vez, o fez ser comparado a Rasputin, o místico que tinha plena atenção da última czarina. A influência de seu pensamento, no Kremlin, variou ao longo das últimas três décadas. Mas a leitura de seu Fundações da Geopolítica, um calhamaço lançado com grande sucesso em 1997, é capaz ainda de provocar espanto para qualquer um que chegue nele desavisado. Pois parece um guia que explica no detalhe toda a política externa russa desde que Vladimir Putin alcançou o poder, na virada do século. Com base em sua visão de mundo, uma invasão da Ucrânia sempre foi inevitável. Ainda assim, Dugin vê guerras como último recurso. Sua tática preferencial, na lida com inimigos da Rússia, são programas de subversão, desestabilização e desinformação. “Devemos provocar toda forma de instabilidade e separatismo dentro dos Estados ... (Leia mais)

12 de Março de 2022 | PREMIUM

Edicão de sábado: A China diante da guerra

No dia 24 de fevereiro tropas russas invadiram a Ucrânia com base em duas alegações: garantir a independência das províncias separatistas de Donetsk e Lugansk e promover uma “desnazificação” do governo ucraniano. Para um grupo de especialistas, o real motivo é que Vladimir Putin vê a Ucrânia como “parte da Rússia” e não deseja que ela integre a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a aliança militar ocidental que se expandiu em direção à fronteira russa até a primeira década deste século. Outro grupo considera que Putin teme que o vizinho se estabeleça como uma democracia forte de cultura eslava, o que poderia alimentar sua oposição, em casa. Se, do ponto de vista dos combates, o conflito está restrito aos dois países, nos outros aspectos já se tornou uma guerra mundial. Estados Unidos e União Europeia vêm municiando o governo de Kiev com armamento e recursos, ao mesmo tempo ... (Leia mais)

5 de Março de 2022 | PREMIUM

Edição de Sábado: Golpe ou Revolução? A Ucrânia em 2014

Na madrugada de 30 de novembro, um sábado em 2013, a temperatura se aproximava do zero grau na Praça da Independência, centro de Kiev. Desde a tarde anterior, aproximadamente dez mil pessoas se concentravam ali em protestos que pareciam querer se ampliar. O primeiro, ainda miúdo, havia sido no dia 21. No dia 24, 200 mil pessoas chegaram a ocupar a rua com faixas e bandeiras, incentivando a ex-premiê Yulia Tymoshenko, presa acusada de corrupção, a iniciar uma greve de fome em apoio. Mas o governo parecia decidido a não permitir que a manifestação alcançasse seu décimo dia. Eram 4h, havia poucas luzes na rua, quando começaram a desembarcar dos caminhões os homens da Berkut. A tropa de choque da polícia federal, com seus uniformes em camuflagem azul e cinza, coletes negros à prova de balas, balaclavas cobrindo o rosto, capacetes de grau militar, no ombro a insígnia da águia ... (Leia mais)

26 de Fevereiro de 2022 | PREMIUM

Edição de Sábado: A Esfinge Putin

É um truque antigo de marketing. Quando preparou uma pesquisa informal para entender as aflições políticas da população russa, Gleb Pavlovsky não perguntou aos leitores do diário Kommersant quem gostariam de ver no comando do Kremlin. O experiente cientista político perguntou sobre personagens de ficção. Qual seria o presidente dos sonhos. O jornal, que Pavlovsky havia dirigido nos tempos da queda da União Soviética, tinha por dono seu chefe, o oligarca Boris Berezovsky. E Berezovsky estava aflito por respostas. Ele e todos da Família. Àquela altura, em princípios de 1999, quase todo mundo já havia abandonado Boris Yeltsin, o presidente da Rússia. Ele, o único líder eleito democraticamente na história para o comando do país, havia desapontado seus eleitores. Em parte, havia injustiça na baixa popularidade. A classe média havia se expandido imensamente nos anos anteriores e os confortos da sociedade de consumo se espalharam rapidamente — telefonia, televisões, geladeiras, ... (Leia mais)

19 de Fevereiro de 2022 | PREMIUM

Edição de Sábado: A estranha ideologia do Telegram

No dia 16 de abril, em 2018, a agência russa responsável por regular serviços de comunicação e tecnologia anunciou que bloquearia o Telegram em todo o país. Exatamente como o Tribunal Superior Eleitoral cogita fazer no Brasil. Naquele dia, o criador do app, Pavel Durov, foi à principal rede social russa, VKontakte, e publicou o desenho de um cachorro branco vestindo um moletom de capuz preto. O texto de legenda dizia apenas ‘resistência digital’. Os russos conheciam aquele cachorro. Passada uma semana, Durov apareceu novamente na VK — e, desta vez, escreveu mais. “Conclamo todos que defendem a Internet livre a lançar uma gaivota pela janela, um avião de papel, exatamente às 19h. Esta semana ficará registrada na história.” Também esta referência, a das gaivotas, os russos conheciam. Lançar gaivotas pela janela a uma mesma hora como símbolo de resistência silenciosa é a conclamação feita por um popular vilão de ... (Leia mais)

12 de Fevereiro de 2022 | PREMIUM

Edição de Sábado: O Modernismo de 2022

Por volta das 19h da segunda-feira, 13 de fevereiro de 1922, os automóveis pretos começaram a chegar ao Theatro Municipal, um prédio em estilo eclético que, fundado dez anos antes, pretendia oferecer à capital paulista um ponto de cultura nobre, digno de qualquer cidade cosmopolita. Os ingressos estavam esgotados para aquela primeira de três noites da Semana de Arte Moderna. Os homens, quase todos muito elegantes, vestiam ternos jaquetão, chapéus de feltro. Os chapéus das mulheres eram quase todos do modelo clochê, que, arredondados em cima, se encaixavam justos nas cabeças, suas abas quase inexistentes apenas sugeridas por uma curva ligeira. Os vestidos eram decotados o suficiente para mostrar o colo, cinturados, mas soltos abaixo, sempre descendo até um palmo antes dos pés. Desfilavam por aquela festa porque era uma noite de ver e de ser visto, um evento marcante sobre o qual a imprensa falava fazia já semanas, num ... (Leia mais)