17 de Outubro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: O Colégio e o Voto

Eles queriam uma República, não uma Democracia, aqueles homens que fundaram os Estados Unidos. Quando se reuniram em debates que duravam dias sem fim, sua revolução já terminada, buscavam inventar um sistema, ou talvez recriar um sistema da Antiguidade, que produzisse liberdade da tirania, que trouxesse Justiça, e que de alguma forma desse vida a ideias ainda bem novas sobre as quais escreviam filósofos como John Locke, Montesquieu ou Voltaire, na Europa. Ideias a respeito da igualdade perante as leis. Isso foi há pouco mais de 230 anos. Eram, aqueles homens reunidos no ano de 1787 na Convenção Constitucional, em geral muito cultos, em geral muito inteligentes, e alguns muito sensíveis, mas também homens que traziam consigo os preconceitos do século 18, os buracos de conhecimento do seu tempo, e uma penca de valores que nos chocariam. Tinham de conviver com os limites tecnológicos de um tempo no qual a ... (Leia mais)

10 de Outubro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: O Pix no futuro do dinheiro

Há um lugar comum jornalístico sobre a cobertura de tecnologia na China: é a surpresa ao descobrir que, nas ruas, pedintes carregam códigos QR para esmolas. Aceitam dinheiro via transações digitais. Tem motivo para a curiosidade se repetir em tantas narrativas. É um atalho para mostrar como a China se digitalizou. Mas igualmente mexe com a imaginação: aponta para um futuro próximo em que o dinheiro se torna de vez digital, no qual cédulas e moedas desaparecem, substituídas por números numa tela. O Pix, novo sistema de pagamento que começa a funcionar em novembro, vai permitir estas transferências via código QR no Brasil. É inevitável que torne o país mais digital. A mexida na imaginação, porém, é na verdade uma ilusão. Porque o dinheiro físico já é exceção faz muito tempo. Estima-se que circulam, no mundo, US$ 51,5 trilhões. Destes, apenas US$ 4,3 tri existem em notas ou moedas. Ou: ... (Leia mais)

3 de Outubro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: E agora, Donald Trump?

Mal passavam das 14h30, no dia 30 de março em 1981, quando para alarme do agente do Serviço Secreto Jerry Parr o presidente Ronald Reagan pôs sangue pela boca. A limusine presidencial trafegava já a toda pelas ruas de Washington, com destino a Casa Branca. Apenas uns minutos antes, quando Reagan saía de um hotel na capital, um homem avançou disparando tiros. Houve corpos caídos, confusão, ainda não estava perfeitamente claro o que havia ocorrido. Mas Parr já havia checado o tórax do presidente em busca de sangue, sinal de que pudesse ter sido atingido. Não encontrara nada. Ainda assim, não piscou. Talvez, no gesto bruto de se lançar sobre o presidente o levando para dentro do automóvel blindado, tivesse lhe quebrado uma vértebra. Talvez houvesse um pulmão perfurado. Deu ordens ao motorista que se desviasse do caminho. Que fosse para o Hospital da Universidade George Washington. Àquela altura, pensou ... (Leia mais)

26 de Setembro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: Os EUA flertam com ruptura institucional

A morte da juíza Ruth Bader Ginsburg, a seis semanas das eleições presidenciais americanas, lançou o país na boca de uma crise política sem precedentes. Uma crise que lança dúvidas a respeito da própria democracia americana. Uma crise que, no limite, pode até alterar o resultado da própria eleição de 3 de novembro. O cenário Juízes da Suprema Corte são indicados por quem ocupa a presidência da República, depois sabatinados e aprovados por maioria simples no Senado. Em média, desde 1975, o processo entre a escolha do nome e a aprovação demora 67 dias. O presidente Trump deve anunciar entre hoje, sábado, e a próxima segunda-feira a pessoa que considera mais apta a substituir Ginsburg. Ou seja, em condições normais, a substituição ocorreria na primeira semana de dezembro. Quase um mês após o pleito. Quem tem, neste momento, todas as peças nas mãos para definir o jogo é o Partido ... (Leia mais)

19 de Setembro de 2020 | PREMIUM

Edicão de sábado: 19 de Setembro

O ano é 2020. Primeiro foram as máscaras — não eram recomendadas no começo da pandemia. Depois vieram as lives, as grandes doações, os vídeos de celebridades unidas contra o coronavírus, as festinhas pelo Zoom, o espírito solidário. Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos. Daí vieram os protocolos do ‘novo normal’, ou a primavera da esperança de que seriam respeitados. Agora são as escolas e suas tentativas de retomada em meio à incerteza de um mundo que, sem vacinação em massa, não tem todas as respostas. O ano é 2020. E não é só no Brasil. As coisas, as pessoas, os dados, as curvas, as prioridades, as políticas mudam muito em meio à pandemia do novo coronavírus. Na última segunda-feira, o guia sobre a retomada das aulas e a reabertura de escolas ao redor do mundo foi atualizado pela Organização Mundial da Saúde, junto com o ... (Leia mais)

12 de Setembro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: Bob Woodward atinge outro presidente

Bob Wooodward não é um jornalista qualquer. Só dois repórteres americanos podem afirmar que apuraram histórias que levaram à renúncia de um presidente — ele e seu colega de Washington Post nos anos 1970, Carl Bernstein. Mas, desde então, ambos seguiram carreiras muito distintas. Enquanto Woodward se consolidou como uma eminência parda da capital, Bernstein seguiu errático sua história profissional. De certa forma, Woodward é a memória de um outro tempo do jornalismo, quando a profissão era percebida em boa parte do Ocidente como independente em relação ao poder. A percepção, hoje, é outra e, por isso mesmo, não são poucas as críticas feitas ao veterano repórter — algumas bastante fortes, principalmente a respeito da cobertura que fez dos governos de George W. Bush. Esta semana saíram detalhes de seu novo livro — Rage, ou Fúria —, o segundo que escreve a respeito do governo Trump. Ali, o atual presidente ... (Leia mais)

5 de Setembro de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: A liberdade bolsonarista e a liberal-democrata

Nesta semana, o presidente Jair Bolsonaro tratou o debate sobre vacinar ou não como uma questão de liberdades individuais. Já havia usado o mesmo discurso para o uso de máscaras ou para a prática da quarentena. A linguagem parece a do liberalismo, mas não é. É um sequestro do termo. O liberalismo trata da liberdade de não ser oprimido, na garantia de que, perante a lei, todas as pessoas serão iguais. O bolsonarismo enxerga a liberdade de ignorar os direitos dos outros. Quem manda pode, quem tem juízo obedece. Não é novo este sequestro do conceito de liberdade e, por isso, não é à toa que seja um dos temas tratados pelo editor do Meio, Pedro Doria, em seu novo livro — Fascismo à Brasileira. A obra narra, como se fosse um thriller, a origem do Integralismo nos anos 1930 — aquele que foi o maior movimento fascista fora da ... (Leia mais)

29 de Agosto de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: As Origens do Nacional Desenvolvimentismo

Quem o conheceu conta que sempre sorria. E é assim mesmo que aparece em quase todos os retratos do tempo de presidente: sorrindo. Tinha aquela capacidade de falar com qualquer um no mesmo tom, não importa se rico ou pobre, com poder ou sem. Juscelino sempre ouvia atento. Hoje, seus discursos não impressionariam — tinham aquele tom de político antigo em que cada palavra é dita por inteiro, nunca tomava atalhos de raciocínio, mesmo quando improvisava parecia recitar um texto escrito. Tremia alguns dos Rs. Mas a memória que deixou foi a de um presidente que imaginou um país grande e o entregou. O presidente do tempo do otimismo, cujo período de governo é chamado Anos Dourados, que governou um país que ganhava o mundo — pela Copa de 1958, pela Bossa Nova que nascia, pelas duas polegadas de Martha Rocha, pela arquitetura modernista que criava. Era um democrata convicto, ... (Leia mais)

22 de Agosto de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: O bizarro conspiracionismo do QAnon

Na última quarta-feira, Facebook e Instagram anunciaram a remoção de 790 grupos, 100 páginas, 1.500 peças publicitárias e um sem número de postagens relacionados a uma teoria conspiratória americana chamada QAnon. Algumas horas depois, na Casa Branca, uma repórter perguntou ao presidente Donald Trump a respeito dos seguidores desta teoria. “Não sei muito a respeito do movimento além do fato de que gostam muito de mim”, ele respondeu. A repórter insistiu. “No centro da teoria há uma crença de que você está salvando o mundo de um culto satânico de pedófilos e canibais.” Trump permaneceu impassível. “Não havia ouvido isso, mas é ruim?”, ele inquiriu. “Se posso resolver problemas do mundo, estou disposto a fazê-lo. E estamos fazendo. Estamos ajudando o mundo a se livrar de uma filosofia radical de esquerda.” Em momento algum o presidente ensaiou um sorriso, uma ironia. Se recusou a sugerir que a história foge à ... (Leia mais)

15 de Agosto de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: O fantasma do SNI se apresenta

Na madrugada do dia 30 de agosto, em 1969, o presidente Artur da Costa e Silva se levantou para ir ao banheiro. Aí, um barulho. Sua mulher, dona Yolanda, também se levantou. Assustada. Encontrou o marido com o olhar perdido, descabelado, vestindo pijamas. “O que é, Costa?”, ela perguntou. O marechal não respondeu. Apontou para dentro da boca — não conseguia falar. Não era o primeiro episódio. Fazia dois dias em que, por alguns instantes, sem que compreendesse bem o porquê, a fala desaparecia. Talvez a tensão do momento justificasse aquilo. Dentro do governo, havia um intenso debate sobre a revogação do AI-5, que fechara a ditadura brasileira uns meses antes, em dezembro. O presidente queria promulgar uma reforma constitucional, reabrir o Congresso e voltar com eleições diretas para governadores. Os ministros militares eram contra, consideravam que o país não estava pronto. O médico particular de Costa Silva, o major ... (Leia mais)

8 de Agosto de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: A primeira crise da Nova Direita

Rede de Ódio, o filme polonês sobre o rapaz que move uma agressiva campanha de desinformação digital contra um candidato nas eleições locais, ia ser lançado pela Netflix em meados do ano passado. Mas aí, em janeiro, um ex-presidiário esquizofrênico avançou contra o prefeito de Gda?sk, Pawe? Adamowicz, e o assassinou a facadas. Vários momentos da história do filme ecoavam a tragédia. A Polônia, afinal, é um dos países cuja política interna foi tragada por uma espiral de ódio e um movimento com vocação autocrática, tocado pela extrema-direita. Os produtores então preferiram segurar. Deixaram passar o pleito presidencial deste ano. Rede de Ódio foi ao ar faz duas semanas. (Assista.) Andrzej Duda venceu a reeleição — 51,21% contra 48,79% no segundo turno, a mais acirrada contagem de votos desde que a Polônia se tornou uma democracia, após o jugo soviético, em 1989. Em campanha, Duda afirmou que seus opositores traíam ... (Leia mais)

1 de Agosto de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: Os caminhos para uma vitória Biden

Ninguém, na campanha de Joe Biden, acha que sua atual liderança será mantida no nível atual. A larga diferença que se firmou entre o ex-vice-presidente de Barack Obama e Donald Trump deve diminuir nos próximos meses. Ainda assim, em inúmeras pesquisas nacionais são mais de dez pontos de vantagem. A última vez em que um candidato à presidência esteva assim tão à frente na virada de julho para agosto foi quando Bill Clinton venceu Bob Dole, em sua campanha de reeleição, no ano de 1996. No pós-guerra, em todos os momentos nos quais o candidato à reeleição entrou o segundo semestre atrás, ele perdeu. Foi assim com George Bush, o pai, como foi com Gerald Ford e Jimmy Carter. Os sinais não são bons para Donald Trump. Ainda assim, aproveitar esta vantagem é chave para Joe Biden. E saber aproveitar-se dela depende de uma correta leitura do cenário, do desejo ... (Leia mais)

25 de Julho de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: A China de Xi Jinping se impõe no mundo

Xi Jinping, o presidente chinês, tem aparecido muito na televisão local. Camisa social lisa e bem passada, mangas nunca dobradas, na calça vincos impecáveis. Nos ambientes externos aparece sem máscara mas, nos internos, todos a vestem. Tem sempre, no rosto, uma expressão leve, que não raro se abre prum sorriso. Quando aparece na TV, Xi costuma estar no centro de uma roda. Pode ser numa fábrica, no meio de uma fazenda, às vezes um laboratório com pessoas de jaleco. Mas é sempre Xi no meio da roda explicando algo. Com 1,80 m, costuma ser um dos mais altos. É comum que curve as costas, lance a barriga à frente e estenda o braço quando fala. Não aponta, pois mantém a mão aberta, mas indica algo. É como se dissesse ter sempre o futuro em mente. “Me surpreendi sobre o quanto ele entende de terra preta”, comentou um agrônomo nesta última ... (Leia mais)

18 de Julho de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: Cultura do Cancelamento e Liberdade de Expressão

No último dia 7, a revista Harper’s publicou um pequeno texto, três parágrafos ao todo, que recebeu por título Uma Carta sobre Justiça e Debate Aberto. Tem, ao todo, 153 signatários entre acadêmicos, artistas e jornalistas. “Protestos importantes por justiça racial e social levam à exigência de uma necessária reforma da polícia, além de pedidos mais amplos por igualdade e inclusão em toda a sociedade, particularmente na educação superior, jornalismo, filantropia e nas artes”, escrevem. “Mas este necessário reconhecimento tornou mais intenso um novo conjunto de atitudes morais e compromissos políticos que tendem a enfraquecer a normas do debate aberto e tolerância de diferenças em favor de conformidade ideológica.” O alvo dos signatários são as ondas críticas, em geral pesadas e mobilizadas via redes sociais, contra a manifestação de opiniões que escapem a um consenso formado no entorno da luta identitária ou outras pautas em geral atribuídas à esquerda. Ou ... (Leia mais)

11 de Julho de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: Começando a reabrir?

A noite de sexta-feira, ontem mesmo, foi a primeira desde o início da quarentena em que os ingleses puderam sair de suas casas com mais liberdade. Salões abriram para os ansiosos por um corte de cabelo, os cinemas também — e os pubs. O início foi marcado com cerimônia. O premiê Boris Johnson foi à televisão, queria dar um tom de gravidade à circunstância. “Para que estes negócios possam se sair bem”, explicou, “para que o ganha-pão dos que contam com eles e mesmo a saúde econômica do país sejam favorecidos, dependemos de que cada um de nós atue responsavelmente.” Ao seu lado estava o ministro da Saúde. “Ninguém acredita que isto é sem riscos”, afirmou Chris Whitty. “Isto é uma tentativa.” O país, ele lembrou aos ingleses, enfrentará problemas sanitários e econômicos graves. “Estamos tentando trilhar o estreito caminho entre ambos.” Não será fácil. No último 15 de junho, ... (Leia mais)

4 de Julho de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: Como o PT reinventou seu eleitorado

Na manhã de 6 de junho de 2005, uma segunda-feira, a Folha de S. Paulo chegou às bancas brasileiras com uma manchete de grande impacto. “PT dava mesada de R$ 30 mil a parlamentares, diz Jefferson.” Na foto da capa, com camisa de manga comprida verde e as mãos ajeitando o cabelo revolto ainda com poucos fios de grisalho, o presidente nacional do PTB se impunha no cenário. Roberto Jefferson partia para o ataque contra o PT. Figura obscura da política que havia se tornado célebre como líder da tropa de resistência ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor, Jefferson estava no centro de um escândalo de corrupção nos Correios, que seu partido controlava. Um vídeo circulando havia flagrado um de seus aliados pedindo propina e o petebista havia se convencido de que os vazamentos eram feitos pelo PT, mais especificamente pelo então ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, que desejava ... (Leia mais)

27 de Junho de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: Quando Stonewall transformou o movimento gay

As batidas em bares gays costumavam acontecer no início da noite. Eram frequentes na Nova York dos anos 1960. Não era ilegal ser gay no estado, mas chegava perto. Beijar em público, ou mesmo dar as mãos, constituía ato obsceno. Era obrigatório vestir no mínimo três peças de roupa que confirmassem seu gênero. E estabelecimentos comerciais só conseguiam licenças para fornecer bebida alcoólica sob determinadas condições e uma delas era não vender para desordeiros. Gays eram considerados por natureza desordeiros. Então todos os bares voltados para a comunidade eram ilegais e pertenciam à máfia. Pois as batidas eram frequentes e sempre iguais. Policiais vestidos em roupas civis entravam como clientes, mapeavam o lugar e enviavam um sinal para fora. Os fardados então chegavam, sempre antes das 22h, mandavam embora a maioria dos clientes, mas detinham homens e mulheres que violassem os códigos de vestimenta, os suspeitos da venda de drogas, ... (Leia mais)

20 de Junho de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: Quem inventou o populismo digital

Gianroberto Casaleggio não é lá um nome particularmente conhecido. Mas foi ele quem inventou as técnicas políticas que levaram o Reino Unido a deixar a União Europeia, alçaram Donald Trump à Casa Branca e puseram Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto. É uma história importante de compreender pois não se trata de um método complexo. Quando colocamos fake news no centro do debate, porém, cria-se a ilusão de que a tática de desmonte digital da democracia pode ser enfrentada com a correção da informação falsa. Dá a impressão de que a eleição dos populistas digitais nasce de um processo baseado na falsificação, em mentiras. Mentiras fazem parte da palheta de ferramentas, mas não estão no centro. O centro da estratégia é duplo: um ataque simultâneo a políticos e à imprensa. E isto é feito pela manipulação de diálogos em comunidades digitais para formar — artificialmente — consensos. Essa história começa ... (Leia mais)

13 de Junho de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: As marcas de um país racista

O racismo é um jeito de organizar a sociedade. As relações sociais. Um jeito imposto, pois cria facilidades para uns enquanto nega a outros. Nos EUA, o racismo foi institucionalizado. Virou lei. Era, abertamente, o motivo de conflito entre Sul e Norte. Uma disputa econômica, na verdade, com a escravatura no centro. Fez parte do acordo para criação do país, quase o fez quebrar durante a Guerra de Secessão, institucionalizou-se século 20 adentro num conjunto de leis de segregação apelidadas Jim Crow. Teve, e continua tendo, seu pior rosto nos homens encapuzados de branco da Ku Klux Klan. Ocorre que, em cada país, o processo de racismo se dá de forma diferente. Se nos EUA esteve sempre assumidamente no centro do debate político, no Brasil ele sempre foi negado. Evitamos o conflito — é um de nossos traços culturais. Não porque o conflito não exista, mas porque nosso jeito de ... (Leia mais)

6 de Junho de 2020 | PREMIUM

Edição de Sábado: Ser Negro na América

Na história do racismo americano, poucos personagens têm a complexidade de Thomas Jefferson, o terceiro presidente. É de Jefferson o texto da Declaração de Independência, o documento que promoveu o rompimento das Treze Colônias com o Império Britânico. “Temos estas verdades por auto evidentes”, escreveu, “que todos os homens são criados iguais, que a eles são outorgados por seu criador certos direitos inalienáveis, dentre os quais a vida, a liberdade e a busca da felicidade.” Palavras fortes naquela década de 1770. Ao longo de sua vida, foi dono de mais de 600 seres humanos. Em sua fazenda, Monticello, trabalhavam pelo menos 130 escravos. Dentre os pais fundadores dos EUA, poucos eram tão reflexivos a respeito dos valores do liberalismo — que começam pela liberdade. Nenhum escrevia como ele. Nem Benjamin Franklin, nem Alexander Hamilton. Ele era o grande escritor. E foi por isso que encomendaram a ele, que era um ... (Leia mais)